Filme: O Doutrinador [Review]

Filme: O Doutrinador [Review]

Uma das maiores reclamações que costumo ouvir sobre o cinema nacional é de que ele vive de comédias “globais” e filmes de favela, logo começar a ver adaptações cinematográficas de quadrinhos é algo interessante. Numa época de ânimos políticos exaltados, O Doutrinador trabalha o tema de uma forma cuidadosa mas cheia de ação.

O filme acompanha Miguel (Kiko Pissolato) agente de uma força policial chamada Divisão Especial Armada. Após sua filha morrer ao tomar uma bala perdida e não conseguir atendimento no hospital, ele se torna um vigilante mascarado, iniciando uma jornada de vingança e retaliação contra os poderosos políticos que, através de maracutaias e trambiques, desviam milhões que acabam prejudicando o povo. Conforme avança em sua empreitada, o então denominado “Doutrinador” pela mídia descobre que a corrupção do sistema vai muito além dos figurões que ele mira como alvo. No elenco Eduardo Moscovis, Samuel de Assis, Tainá Medina, Natália Lage, Tuca Andrada, Helena Ranaldi e Marília Gabriela.

Não tive a oportunidade de ler a HQ criada por Luciano Cunha, que serviu de base para o filme, mas baseado no que li sobre ela fiquei com receio do filme ser maniqueísta e tendencioso, mas aparentemente houve uma preocupação com isso durante a produção. O tipo de político abordado é um padrão genérico, velhos brancos engravatados com sede de poder. Não fazem alusão direta a algum partido específico também, mas tem referência direta a alguns perfis como os grandes criadores de gado e a bancada evangélica por exemplo. Os políticos em si estão ali para servirem de ponte a temas que vemos todos os dias no jornal, mas que muitas vezes acabam em pizza como caixa 2, nepotismo, negociatas para manipular investigações e o posicionamento da mídia, corrupção das forças de segurança, etc. Toda esta impunidade é um dos motivadores do Doutrinador. Também acontece um questionamento quanto às ações do vigilante, mostrando que seus atos violentos não são necessariamente a melhor escolha para lidar com o problema. Este foi um ponto abordado na obra Tropa de Elite com o Capitão Nascimento, no primeiro e principalmente no segundo filme.

A ambientação trabalhada pelo diretor Gustavo Bonafé remete bastante a quadrinhos, numa metrópole fictícia com letreiros em neon espalhados pelos prédios fazendo mershan dos patrocinadores da produção. Aliás, existe um certo destaque descarado aos patrocinadores durante o filme, o que fica um pouco vexatório, mas é feito lá fora e também incentiva a apostarem mais no cinema nacional (uma das locações é uma loja de quadrinhos, lá se pode ver muita coisa de produção nacional, um ponto muito válido). Para o que costumamos ver no cinema brasileiro, as cenas de ação estão muito bem trabalhadas, ainda mais que Pissolato dispensou dublês para quase tudo, porém achei que muitas vezes a câmera tremida e as tomadas fechadas demais  sobre os personagens prejudicaram o entendimento do que estava acontecendo. Entendo que este recurso ajuda a disfarçar o fato dos golpes não acertarem de verdade, mas um plano mais aberto valoriza a coreografia e fica bonito em tela. A trilha sonora tem bastante rock pra combinar com a ação, porém em alguns momentos aposta num hip-hop que deveria ter sido mais explorado, pois combinou muito com a atmosfera do filme.

Tendo em vista que a base dos personagens são estereótipos, os atores fazem um bom trabalho. São poucos os que têm um desenvolvimento dramático mais explorado, a maioria é bem bidimensional do início ao fim. Meus problemas são com os diálogos canastrões, que de tempos em tempos tentam emplacar uma frase marcante como filme oitentista de ação, mas falham miseravelmente. Certas coisas soam forçadas mesmo com o ator fazendo uma interpretação boa. Quanto aos estereótipos nós temos o amigo do herói que suspeita de sua segunda identidade, a mocinha descolada que ajuda o herói na parte mais técnica mas não precisa ser salva quando se mete em perigo, um vilão poderoso com capanga de cara amarrada, dentre outras coisas que remetem a filmes antigos de ação. Não acho que isso necessariamente seja ruim pro filme, são clichês que ajudam na condução da história e funcionam bem no contexto da película.

Gosto de ver o cinema nacional ousando mais, buscando caminhos diferentes para movimentar o mercado e fazer as pessoas pararem de ter preconceito com o que é feito aqui. Espero que esta onda de adaptações de quadrinho ganhe força, pois já tivemos Motorad no primeiro semestre, temos O Doutrinador agora e teremos Laços da Turma da Mônica ano que vem, cada um com uma pegada e proposta diferente. Apoie as produções locais, o filme vale o ingresso e se fizer sucesso só abre caminho para que outras propostas como essa ganhem vida. Lembrando que O Doutrinador vai ganhar uma série ano que vem.

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