Filme: Lady Bird – A Hora de Voar [Review]

Filme: Lady Bird – A Hora de Voar [Review]

Muitos filmes abordam a adolescência e as complicações da transição para a vida adulta, mas poucos tem o primor e naturalidade dos diálogos e narrativas de Lady Bird – A Hora de Voar. O filme que ganhou destaque em premiações como Globo de Ouro e Oscar é quase uma biografia da diretora Greta Gerwig, que trabalha a trama simples de maneira irresistivelmente cativante.

Nascida na pequena cidade de Sacramento, na Califórnia, a jovem Catherine McPherson (Saoirse Ronan) é uma figura ímpar, tanto que se autodenominou “Lady Bird” e só aceita ser tratada como tal. Ela almeja completar o ensino médio na escola católica para fazer faculdade em Nova York, entrando em conflito com os planos de sua mãe, Marion (Laurie Metcalf) que de igual personalidade forte prefere a filha cursando uma universidade mais próxima. Lady Bird planeja voar alto e conquistar o mundo, mas até lá precisa lidar seus primeiros romances e todas as descobertas dessa fase tão intensa da vida. No elenco Tracy Letts, Lucas Hedges, Beanie Feldstein, Stephen Henderson e Lois Smith.

Sem dúvida uma das maiores riquezas deste filme é a interação de Lady Bird com os outros personagens, principalmente com sua mãe. Impossível não cativar por Ronan e sua protagonista maluquinha, cheia de atitude, sonhos e lições para aprender. Ela parece uma garota que você pode cruzar na rua, que talvez você já tenha conhecido ou ouvido falar de alguém que já a conheceu. A química dela com Laurie (conhecida por interpretar a mãe do Sheldon em The Big Bang Theory) é incrível, até porque Laurie também é uma atriz fantástica e carrega tanta verdade em sua personagem quanto Ronan. Mesmo os personagens que não são explorados a fundo fogem dos estereótipos ao qual estamos acostumados, o que os tornam mais próximos à realidade.

Toda a história se passa no começo dos anos 2000, e a atmosfera criada é convincente através dos elementos apresentados, seja na trilha sonora ou a repercussão do 11 de Setembro no dia-a-dia das pessoas. Outras camadas da história que chamam a atenção são a religiosidade, geralmente mostrada como algo rígido e punitivo mas que na escola de Lady Bird é até um tanto quanto compreensiva e conciliadora, e as diferenças sociais como no caso do pai da garota, mostrado como uma pessoa com qualidades mas que sofre depressão por estar desempregado, fazendo com que a matriarca da família faça jornada dobrada e seja ainda mais controladora em relação às decisões do lar. A menina tem vergonha desta situação, tornando este mais um dos fatores que a incentivam a querer viver em uma cidade grande.

A jornada de Lady Bird muitas vezes lembra um seriado de TV, e certamente a história se enquadraria bem no formato, porém a diretora soube como usar a narrativa a seu favor e nos conduzir apenas para os eventos mais relevantes. Em alguns momentos a narrativa me lembrou histórias em quadrinhos, como em uma passagem de tempo em que mostrou cenas rápidas para fazer uma transição de forma clara, o que numa página de quadrinhos seria uma sequência de uma página só com fragmentos de instantes para avançar a história de uma maneira fluída.

Recomendo este filme mesmo para as pessoas que não curtem esta temática, pois aqui não vemos situações pesadas e destrutivas que forçam um amadurecimento do indivíduo, mas sim questionamentos, descobertas e conflitos que todo mundo passa, trabalhados de maneira inteligente e com um humor pontual. Lady Bird é um filme despretensioso que carrega uma nostalgia para quem já passou por esta fase tão especial.

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