Filme: Alita – Anjo de Combate [Review]

Filme: Alita – Anjo de Combate [Review]

Assim como os games, mangás e obras oriundas do Japão costumam sofrer nas mãos de Hollywood, se tornando adaptações genéricas que não tem nada em comum com sua fonte além do nome (alguém falou Dragon Ball – Evolution?). Alita – Anjo de Combate  veio com o desafio de mudar isso, dando vida de forma competente a obra futurista de Yukito Kishiro.

Em um futuro distópico onde boa parte da humanidade vive de forma miserável abaixo de uma poderosa cidade voadora, o mecânico de próteses Dr. Dyson Ido (Christoph Waltz) encontra a carcaça ainda viva de uma ciborgue, ao qual reconstrói e dá o nome de Alita (Rosa Salazar). De aparência dócil e delicada, a jovem sem memória começa a ter vislumbres de seu passado, descobrindo que é muito mais rara e poderosa do que imagina. No elenco Ed Skrein, Jennifer Connelly, Mahershala Ali, Jackie Earle Haley e Eiza González.

Há cerca de 20 anos os direitos para fazer uma adaptação cinematográfica de Alita estavam nas mãos de James Cameron, mas como ele foi se envolvendo com sua franquia de azulões Avatar, acabou permanecendo na produção e passando a tocha para Robert Rodriguez, um diretor que não tem medo de colocar coisas absurdas em cena e que já fez um trabalho competente em adaptação de quadrinhos com o primeiro Sin City – A Cidade do Pecado. Aqui novamente ele consegue o equilíbrio entre a fidelidade das cenas e a adaptação pertinente e necessária à nova mídia. Até mesmo a violência dos quadrinhos está presente, porém, como uma faixa etária alta prejudicaria a bilheteria, as máquinas possuem um sangue azulado, logo decapitações e desmembramentos estão liberados. O mangá de Kishiro chamado originalmente de Gunnm no Japão foi lançado em 1990, e já teve algumas versões brasileiras, sendo a mais recente lançada pela editora JBC. A obra ganhou uma animação em 1993 (que é bem fraca, diga-se de passagem).

A ação em si está bem competente, incorporando as dinâmicas e movimentos comuns no mangá. A cena no Motorbal é uma exceção, pois a velocidade deixa as coisas um pouco confusas, “quase” chegando ao ponto Transformers de bagunça metálica. O filme trabalha os principais pontos da trama do mangá com muita fidelidade, usando soluções inteligentes para deixar as coisas mais dinâmicas. A amnésia inicial de Alita serve para colocá-la junto ao público na descoberta das regras deste novo mundo. O problema é que o ritmo acaba ficando muito acelerado, com muita informação sendo processada, sem tempo de explorar ao máximo as interações entre os personagens e desenvolvimento de alguns pontos – nada que prejudique muito o filme, mas fica uma sensação de que certas coisas poderiam ter sido melhor trabalhadas. Isso é comum em adaptações de livros e afins, pois os produtores precisam escolher se cortam, suprimem, dividem ou alteram totalmente o conteúdo para caber no que precisam fazer.

Alita é uma personagem muito cativante, e você compra a jornada dela em busca de seu passado e de quem ela é facilmente. Muita gente torceu o nariz para os grandes olhos da personagem, mas juntos com a atuação de Rosa Salazar e o minucioso trabalho de captura de suas expressões, você entende que mesmo sendo diferente naquele mundo ela tem mais humanidade do que muitos ali. Acredito que a ideia era simular da forma mais realista possível os grandes olhos dos mangás e suas expressividades, o que pra mim funcionou muito bem. Lembrando que não são só os olhos que têm computação gráfica, o que está em tela é um corpo TOTALMENTE digital, coisa que deixou muita gente chocada após o filme devido a qualidade (lembrando que James Cameron sempre teve competência em colocar personagens digitais em cena, como visto em Exterminador do Futuro 2 e o próprio Avatar).

A personalidade da protagonista vai evoluindo com o passar do filme, ainda que ela tem seus rompantes de adolescência quando está junta de Hugo, presente ali apenas como uma âncora chata da ciborgue. Fica claro que apesar de toda força e postura, Alita ainda á uma adolescente, então fazer besteiras por uma paixonite é totalmente compreensível. Já Hugo é um personagem muito sem graça, que no filme ganhou uma pinta de galã descolado (ao contrário do quadrinho, onde ele era um rapaz bem comum). O resto dos coadjuvantes estão interessantes, ainda que acabem ficando rasos devido ao ritmo acelerado. A relação de Alita e Ido por exemplo é muito bonita, tem uma coisa meio de Pinóquio e Gepeto, mas os diálogos poderiam ter sido mais explorados.

Sem sombra de dúvidas Alita – Anjo de Combate é a melhor adaptação já feita de um mangá para as telas de Hollywood até o momento. O filme não é perfeito, mas entrega algo competente que não deve em nada a blockbusters de ação e ainda respeita os fãs e o material original de forma exemplar, agradando até mesmo quem nunca havia ouvido falar do mangá. Devido ao alto custo e por ter um tema tão nichado como o cyberpunk, não sei se vai ter bilheteria pra emplacar uma sequência, mas estou na torcida para ver mais Alita nas telonas.

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