Sarjeta do Terror #18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

Sarjeta do Terror #18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

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Em diferentes níveis e com diferentes abordagens, as grandes editoras americanas (DC e Marvel Comics) sempre tiveram alguma relação direta ou indireta com o terror e, embora não tenham sido atingidas pelo Comics Code Authority de forma tão cruel quanto a EC, também tiveram seus obstáculos para seguir adiante com seus títulos do gênero sem ter que encerrá-los – muita vezes transformando completamente a propostas desses títulos. Como DC e Marvel possuem linhas de tempo e histórico diferentes, cada uma foi afetada também de forma diferente pelo Comics Code, embora sempre tenham mantido histórias que possuíam ao menos alguns elementos associados ao terror.

Nesta nova série de matérias de cunho histórico, irei analisar, de uma forma resumida, é claro (então me perdoem por algumas simplificações históricas mais grosseiras feitas para efeitos de síntese), a relação dessas editoras com o terror e a evolução de seus títulos no decorrer do tempo. A primeira delas ser a DC Comics.

O Terror na DC Comics

A empresa hoje conhecida como DC Comics surgiu em meados dos anos 40, fruto da fusão entre 3 editoras: a National Allied Periodicals, a Detective Comics Inc e a All-American Publications. Todas elas publicavam títulos que variavam entre o pulp, histórias de guerra, humor/animais antropomorfizados e a nova sensação daquele momento, os super-heróis (iniciada pela primeira com seu título Action Comics e seu personagem, o Superman).

Naquela época, o gênero de terror nos quadrinhos não era bem delimitado, restringindo-se normalmente ao subgênero pulp do “Weird Menace” (mais detalhes na matéria sobre as origens das Hqs de terror americanas); tampouco o gênero de super-heróis era tão bem definido como o é hoje, sendo as primeiras tentativas de criar super-heróis muito próximas dos pulp, ou seja, personagens com superpoderes e uniformes, mas cujas histórias lembravam muito a dos seus “pais”. Afinal, era um gênero que ainda estava em fase embrionária.

Por essa razão, não é surpresa que, entre os primeiros super-heróis, se encontravam personagens que tinham um “pé” no terror, uma vez que este subgênero era comum nas Hqs pulps. Personagens como Doutor Oculto e Sargon, o Feiticeiro (inicialmente uma espécie de Mandrake), ficavam neste “elo perdido” entre o pulp e o super-herói, sem se definir como um ou outro; outros, como Espectro, Lanterna Verde e Senhor Destino traziam o sobrenatural e o místico para as histórias de super-herói, enquanto que personagens como Superman e Flash enfrentavam, além de criminosos comuns, tipos diretamente inspirados no Weird Menace, como cientistas loucos e sádicos misteriosos.

As casas de horror da DC

O grande foco da DC – na época ainda Nacional Periodicals – era, é claro, os super-heróis, que alcançavam grande popularidade e foi o gênero pelo qual as empresas que se fundiram para formar a editora se tornaram conhecidas. Foi só nos anos 50, quando as HQs de terror propriamente ditas já estavam consolidadas no mercado como um gênero próprio, que a DC começou a investir no gênero diretamente.

O principal representante desta safra foi The House of Mistery (A Casa dos Mistérios), uma Hq de antologia sobrenatural lançada em 1951. O formato não era muito diferente de outras antologias de sci-fi que a editora já publicava, como Mistery in Space e Strange Adventures; a diferença aqui é que HoM era abertamente uma Hq com temática voltada para o terror. Como toda antologia, as histórias eram variadas e não tinham nenhuma ligação obrigatória entre si.

Seguindo o sucesso de House of Mistery, a DC lançou, em 1956, um título-irmão chamado The House of Secrets (A Casa dos Segredos). Apesar de ter um formato semelhante de antologia, HoS se diferenciou por também produzir histórias com personagens relativamente fixos, entre eles um feiticeiro chamado Mark Merlin (não confundir com Malcolm Merlin, personagem das histórias do Arqueiro Verde), Eclipso (que depois se tornou vilão da Liga da Justiça) e Príncipe Ra-Man.

No fim dos anos 50, a crescente paranoia em torno das histórias em quadrinhos criminais e de terror levou à criação do Comic Code Authority e acabou causando, entre outras coisas, a extinção de editoras como a EC Comics, que os tinha como carros-chefe. A DC, ao invés de encerrar seus títulos, acabou reformulando-os para que se encaixassem nas exigências do código. House of Mistery se tornou praticamente uma antologia de mistério com a participação de super-heróis (tendo como principal atração o Caçador de Marte), enquanto que House of Secrets, após um hiato de 3 anos, retornou nos anos 60 mantendo sua identidade de antologia de mistério, mas dentro dos limites do código.

O retorno do Terror

No início dos anos 70, houve uma revisão no Comics Code que garantiu algumas mudanças e permitiu o uso de alguns monstros em particular e de alguns tipos de histórias que eram proibidas (como, por exemplo, uso de drogas), desde que em circunstâncias bem particulares.

Com isso, foi possível às grandes editoras começarem a ensaiar seu retorno às histórias de Terror. A DC chamou Joe Orlando (Veterano de Comics de Terror como Creepy, da Warren Publishing) para editar a Casa dos Mistérios, que retornou às suas raízes, causando inclusive uma mudança na qualidade das histórias individuais, que começaram a receber prêmios e reconhecimento da indústria. A Casa dos Segredos também foi beneficiada pela revisão do código, e foi responsável pelo surgimento de um dos personagens de terror mais populares da DC (se não O mais popular), o Monstro do Pântano. Ambos os títulos foram revitalizados posteriormente, já dentro do selo Vertigo da DC (mais detalhes sobre estas duas HQ, suas histórias e seus anfitriões em matérias futuras).

O Monstro do Pântano

Criado em 1971 por Len Wein e Bernie Wrightson, O Monstro do Pântano foi um personagem fundamental na história das Hqs mais voltadas para o público adulto da DC Comics. Foi uma das poucas revistas à sua época que possuíram edições que saíram sem o selo do Comics Code, e o sucesso da fase escrita por Alan Moore foi provavelmente um dos catalisadores para a gênese do que depois seria conhecido como o selo Vertigo da editora. Monstro do Pântano surgiu originalmente numa história de House of Secrets com uma história passada no início do século 20 e, devido à sua popularidade, acabou ganhando revista própria onde o personagem foi atualizado para os dias atuais (na época, os anos 70). Na história, Alec Holland (no conto de House of Secrets, Alex Olsen) é um cientista que tem seu laboratório sabotado e,ao invés de ser morto, sua mente se funde ao pântano de Louisiana, transformando-o em uma criatura meio homem, meio planta.

O Demônio

Outro personagem que se tornaria icônico no universo DC foi Etrigan, o Demônio. Criação do rei Jack Kirby, Etrigan surgiu em 1972 em revista própria como filho do demônio Belial, convocado por seu meio-irmão Merlin, que o vincula a um cavaleiro que servia ao rei Arthur, Jason Blood, na tentativa de extrair segredos da criatura. Esse vínculo torna Blood um imortal e faz com que esta maldição perpasse o tempo, chegando ao presente do universo DC. The Demon surgiu após o cancelamento das revistas vinculadas à saga do Quarto Mundo, a partir da pressão da DC, que queria continuar contabilizando com o sucesso de personagens voltados para o terror.

Eu… Vampiro!

Um personagem que posteriormente se tornou recorrente de House of Mistery e acabou ganhando título próprio por conta de sua popularidade foi I…Vampire! (Eu…Vampiro!). Criado nos anos 80, I…Vampire! acompanhava a história do Lord Andrew Bennett, que depois de ter se transformado num vampiro, mantém-se “bom” e transforma sua própria amante numa vampira, apenas para vê-la sendo corrompida pelo poder e formar uma equipe de vampiros para tomar o mundo. Bennett precisa, então, combater sua ex-amada a todo custo e impedir o fim do mundo pelas mãos dos vampiros. I…Vampire! teve um revival na fase “Novos 52” da DC.

O Mestre dos Sonhos

Na DC Comics, Sandman foi o nome de diversos personagens diferentes com histórias que variavam do pulp ao super-herói. Mas provavelmente o mais popular de todos eles foi a revitalização que Neil Gaiman propôs, criando um personagem totalmente novo que era o sonho encarnado – e cujas histórias reconheciam a existência, de uma forma ou de outra, de todos estes personagens que um dia se chamaram “Sandman” (mais sobre o personagem em matérias futuras).

Com a flexibilização do Comics Code nos anos 70, e uma nova revisão no fim dos anos 80, a DC Comics seguiu avançando em tentativas de criar títulos interessantes, não só de terror, mas de gêneros diversos mais voltados para “leitores maduros”. A essa caravana seguiram-se personagens como Monstro do Pântano, Sandman, Homem-Animal, entre outros, que acabaram se tornando os precursores do selo que passaria, nos anos 90, a ser conhecido como Vertigo.

Curiosidades:
– All-American Publications, uma das empresas que mais tarde se tornaria a DC Comics, foi criada por Max Gaines (pai de Willian Gaines e fundador da EC Comics);
– Curiosamente, o nome “DC” começou como apenas um “apelido” popularmente conhecido e utilizado pela National (que estampava um selo onde se lia “Superman-DC”). A editora só tornou este nome oficial em 1977;
– Cain e Abel, personagens icônicos da DC durante décadas (anfitriões da Casa dos Mistérios e da Casa dos Segredos, respectivamente) foram criados durante a versão reformulada das revistas, pós-Comics Code, mas acabaram se tornando fortemente associados aos seus respectivos títulos;
– A Casa dos Mistérios também introduziu o personagem Disque H para Herói;
Mark Evanier relata que Kirby não tinha nenhum interesse em fazer histórias de terror, mas criou Etrigan pela pressão da DC, que queria que ele criasse um personagem dentro desse gênero;
– Ainda sobre Etrigan, Kirby se inspirou em uma história do Príncipe Valente para criar o personagem. Na história em questão, o príncipe de disfarçava de demônio. Kirby deu, inclusive, o mesmo rosto a Etrigan que tinha a máscara do Príncipe Valente naquela história;
– Andrew Bennett, de Eu…Vampiro!, por ser um vampiro “bom”, bebia apenas sangue de outros animais ou sangue humano engarrafado – o que trazia um interessante subtexto de alcoolismo. Bennett também tentou suicídio diversas vezes para tentar acabar com sua maldição;
– Uma história de House of Mistery de horror/humor acabou dando origem a Plop!, uma revista de curta duração publicada pela DC. A revista tinha 3 anfitriões baseados na Bíblia (Cain, Abel e Eva), dois dos quais também eram também anfitriões de House of Mysery e House of Secrets;
– Em 1986, Elvira, a Rainha das Trevas, se tornou anfitriã convidada da Casa dos Mistérios numa fase curta chamada “Elvira’s House of Mystery”, onde a personagem apresenta contos de terror enquanto é incubida pela própria casa de encontrar o desaparecido anfitrião original, Cain.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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