Sarjeta do Terror #21 – Terror nas grandes editoras, parte final

Sarjeta do Terror #21 – Terror nas grandes editoras, parte final

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Embora DC e Marvel sejam muito mais lembradas por seus super-heróis do que por seus personagens mais voltados para o terror, não dá para negar que o gênero influenciou muitas das histórias contadas por ambas as editoras (inclusive entre os super-heróis). Mas as revisões do Comics Code permitiram que estas editoras pudessem alçar vôos mais altos com histórias especificamente voltadas para o terror, e até histórias mais adultas. Com isso, os leitores puderam apreciar obras como O Cavaleiro das Trevas, a Piada Mortal, Asilo Arkham – Uma séria casa num sério mundo, A Última Caçada de Kraven, Sandman, Monstro do Pântano, entre outros.

Nem todas essas histórias se encaixariam no gênero “terror”, é claro, mas o importante aqui é ter em mente que certos elementos (especialmente o terror psicológico) que dão uma tônica mais madura às histórias só foram possíveis a partir dos anos 80 e da flexibilização do Comics Code. Essas mudanças também abriram caminho para a criação de um selo “à parte” da DC que acabaria fazendo história. Na última parte sobre terror nas grandes editoras, uma visão (bem reusmida) da história do selo Vertigo.

O selo Vertigo

Falar sobre terror na DC Comics seria impossível sem falar do selo Vertigo. Não porque o selo seja exclusivamente voltado para o gênero (longe disso), mas porque podemos dizer que o terror foi um dos pontos de partida para o seu surgimento.

Oficialmente, a Vertigo surgiu no início dos anos 90, sob a gerência e graças à visão de Karen Berger. Mas sua história começa um pouco antes. No final dos anos 70, Berger era assistente do editor Paul Levitz e já tinha certa bagagem no terror, tendo começado a trabalhar em linhas como House of Mistery. Já nos anos 80, como editora de títulos como Mulher Maravilha e Ametista, Berger começou a trazer escritores da Inglaterra para a DC, incluindo gente como Neil Gaiman, Peter MIlligam e Grant Morrison. O motivo principal é que ela via nesses autores um visão mais renovada dos quadrinhos, na forma roteiros mais interessantes e maduros – em comparação com o mundo polarizado dos comics de super-herói.

Estes escritores começaram a trabalhar em personagens-chave que naturalmente passaram a se tornar algo diferente do que a DC tinha até então com seus super-heróis. Estampando na capa a mensagem “sugerida para leitores maduros”, 7 títulos deram o pontapé inicial para o surgimento do selo Vertigo: Homem Animal, Patrulha do Destino, Shade, Orquídea Negra, Sandman e Monstro do Pântano, todos estes sob a tutela de Karen Berger e escritos por autores britânicos.

Em 1993, durante uma reunião de editores, Berger ganhou a tarefa de colocar seus títulos mais maduros sob um selo próprio, para que fosse capaz de fazer coisas diferentes e fazer a mídia quadrinhos amadurecer mais. Entra em cena a Vertigo.

Enquanto muitos títulos do selo se situavam dentro da continuidade do Universo DC, outros que existiram em continuidade própria, separados não só do UDC, mas também de outros títulos Vertigo. Foi o caso, por exemplo, de Preacher, de Garth Ennis, que apenas compartilhava continuidade com suas séries spin-off.

O monstro e o encapotado

Monstro do Pântano, série sobre o cientista que se transforma em um hiíbrido planta-animal, criado originalmente por Len Wein, foi revitalizado pelas mãos de Alan Moore, que pavimentou o caminho para outros roteiristas quando a HQ foi colocada sob a batuta da Vertigo. Alan Moore também foi responsável pela criação de John Constantine, que passou para a Vertigo com o tílulo Hellblazer, um dos mais populares do selo.

Maluquices lisérgicas

Outro que despontou nesta época foi Grant Morrison. O autor revitalizou o Homem Animal e a Patrulha do Destino, criando, com estas HQs, duas das séries mais inusitadas e estranhas que os quadrinhos norteamericanos já produziram. Na primeira, o Homem Animal vira vegetariano, toma alucinógenos e encontra seu próprio criador; na segunda, a “equipe mais estranha do universo DC” faz jus ao seu nome com personagens bizarros e histórias pra lá de surreais.

50 Shades do Milligan

Shade, o homem mutável, foi um personagem criado por Steve Ditko nos anos 70. Nos anos 80, foi trazido de volta, tendo sido revitalizado nas páginas do Esquadrão Suicida, ganhando título próprio 6 meses depois de sua última aparição na revista, sob a tutela de Peter Milligan. Entre as características curiosas da revitalização feita por Milligan estão alterações em sua origem (mostradas em Esquadrão Suicida) e as várias mortes do personagem. Milligan matou o personagem diversas vezes, sempre trazendo-o em uma forma diferente, seja em etnia ou gênero biológico. Shade trouxe diversos assuntos que não eram abordados em nenhuma história de super-heróis mainstream (como transgeneridade, por exemplo).

Os sonhos de Neil Gaiman

Sandman, a revitalização do personagem da era de ouro feita por Neil Gaiman, deu muitos frutos para a Vertigo em todos os sentidos. Além do título principal, a série explodiu em diversos spin-off de personagens de seu universo, como Lúcifer e Morte, criando quase um universo próprio dentro do Universo DC. Além disso, Gaiman trouxe também Tim Hunter e a HQ Livros da Magia, que tinha a participação de diversos seres do lado místico/sobrenatural da DC. Curiosamente, Wesley Dodds, o Sandman da Era de Ouro (e membro da Sociedade da Justica) teve um retorno pela Vertigo com Sandman: Teatro do Mistério, por Matt Wagner.

Curiosidades

– Diversos títulos publicados pela DC anteriormente, pré fundação da Vertigo, foram reimpressos sob o selo (lá nos EUA), entre eles V de Vingança;
– Duas adaptações cinematográficas foram feitas baseadas em personagens da vertigo: Constantine, com Keanu Reeves, baseado em Hellblazer (considerada a primeira adaptação), e Marcas da Violência (quer dizer, 3, se você considerar também V de Vingança). Essa contagem oficial ignora, é claro, filmes de personagens feitos antes do surgimento do selo, como os dois Monstro do Pântano;
– Títulos da Vertigo também tiveram adaptações para séries de TV, como Human Target e Constantine;
– Karen Berger pode ser vista como personagem da DC na última edição de House of Mystery (323), onde ela mesmo expulsa Caim da casa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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