Sarjeta do Terror #6 – Interlúdio: Garra Cinzenta – Pulp horror nacional

Sarjeta do Terror #6 – Interlúdio: Garra Cinzenta – Pulp horror nacional

capapost6

Nota: Calma, a matéria sobre a E.C. Comics vai continuar, eu prometo. Mas, entre uma parte e outra, pretendo alternar com posts mais fechados, sem ligação direta com essa série de matérias. De qualquer maneira, cada parte funciona em separado, então não vai ser um problema esperar um pouco mais para lê-las.

Generic Image

Quem está acompanhando esta coluna desde o começo deve lembrar de quando comentei sobre a gênese das HQs de terror norteamericanas (quem não lembra, ou não leu, pode conferir aqui) e de seu surgimento a partir dos pulp comics. Bem, grosso modo, podemos argumentar que os pulp são os “pais” tanto das das HQs de terror quanto das HQs de super-herói. Por isso, quem lê quadrinhos há um bom tempo já deve ter notado que estes vivem se cruzando nos quadrinhos.

Mas esta distinção entre histórias de super-herói e histórias de terror no Brasil quase não existia entre os anos 30 e 40; por aqui, Dr. Oculto (personagem da DC Comics) foi uma das primeiras (se não a primeira) história em quadrinhos de terror, publicada em 1937, e uma das primeiras revistas de terror publicadas no Brasil era protagonizada originalmente por um super-herói, o Terror Negro. Essa “mescla” entre o pulp, o terror e os super-herói é o que fundamenta a criação de um dos personagens brasileiros mais icônicos já criados: a Garra Cinzenta.

Criado por Francisco Armond (roteiro) e Renato Silva (Arte), Garra Cinzenta é um gênio criminoso que, utilizando uma máscara de caveira, aterroriza uma cidade cujo nome é ignorado. Sua marca registrada são cartas com a imagem de uma garra que deixa para suas vítimas, além de utilizar-se de equipamentos científicos bastante avançados para a época, como plataformas elétricas, pistolas de ar comprimido e inclusive um protótipo de televisão (numa época em que esta ainda nem existia no Brasil). Para realizar seus planos criminosos, Garra Cinzenta conta com dois ajudantes, um estranho robô chamado Flag e a Dama de Negro. Seu principal nêmesis era o Inspetor Higgins, que encabeçava as investigações na busca pelo vilão.

garra_cinzenta_rl_1Publicado como na Gazetinha – um suplemento do jornal Gazeta de São Paulo – em 1937, Garra Cinzenta misturava elementos de histórias policiais, noir e terror, com nível de violência bastante elevado para a época; além disso, trazia também alguns aspectos de sci-fi e do que futuramente seria conhecido como o gênero de super-herói. Garra Cinzenta foi publicado de forma seriada durante pouco mais de 100 capítulos (cada capítulo era uma página da história).

Embora pareça fazer o estilo “Weird Menace” clássico dos pulps, Garra Cinzenta desafia este rótulo por diversos motivos. Ele não parece ser o típico sádico das histórias pulp; é, sim, um gênio criminoso que parece estar sempre um passo à frente da polícia – e com objetivos que lembram mais os de um supervilão de histórias de super-herói do que de um criminoso pulp. Além disso, os aparatos que o vilão utiliza o levam mais para o sci-fi do que para a história de tortura/sadismo (ou, “torture porn”, na linguagem do cinema de terror), mesmo alguns dos temas remetendo ao gênero (como ressurreição e a criação de criaturas híbridas humano e animal). Por isso, frequentemente Garra Cinzenta é colocado como a primeira HQ brasileira de terror, policial e de super-herói (apesar do personagem principal ser um vilão, mas vocês entenderam) sendo todas e nenhuma delas ao mesmo tempo. Ou seja, uma HQ que estava bastante na vanguarda até para os padrões globais, imagina então para os padrões brasileiros.

Que o diga a arte de Renato Silva que, apesar do traço remeter aos grandes desenhistas da época, demonstra um dinamismo na arte sequencial que rivaliza com os artistas que definiram os padrões da narrativa de quadrinhos e as influenciam até hoje.

Garra Cinzenta ficou por muito tempo esquecido do público (muito provavelmente pelo fato de que parte da história se perdeu e só recentemente foi resgatada), retornando graças à era da internet e o crescente interesse por produções nacionais e pela história dos quadrinhos brasileiros. Atualmente, a história original da Garra Cinzenta pode ser adquirida em uma versão fac-símile (que reproduz inclusive o texto original – com um português pré-reformas ortográficas de 43 e 71, então não se assuste com palavras conhecidas grafadas de forma completamente diferente, como “Êle”, “Policiaes”, “Theatro”, entre outros) publicada pela editora Conrad.

Garra Cinzenta é uma das maiores heranças nacionais dos quadrinhos. Um verdadeiro clássico das hqs de terror e – porque não – de super-herói, que merece ser conhecido por estar na vanguarda de dois gêneros de quadrinhos que sempre foram muito apreciados pelos brasileiros.

Curiosidades:

– Apesar de ter ficado desconhecido pelo público brasileiro por um bom tepo, Garra Cinzenta fez muito sucesso, não só aqui no Brasil, mas também no México, na Bélgica e na França;

– Francisco Armond, o escritor e criador do Garra Cinzenta na verdade não existe. Ele é um pseudônimo, hoje em dia tradicionalmente atribuído a Helena Ferraz de Abreu, que dirigia, junto com o marido, a Livraria Civilização e os jornais Gazeta de São Paulo e Correio Universal no Rio de Janeiro. Embora ainda não se tenha certeza sobre que Helena tenha sido realmente a roteirista por trás da Garra Cinzenta, se isso for verdade, Helena teria sido possivelmente a primeira roteirista mulher das HQs de terror/super-herói;

– Quando Garra Cinzenta chegou à França, foi através do que era publicado no México. Por conta disso, sempre se pensou que o personagem fosse criação mexicana. Felizmente a confusão já foi desfeita e hoje ele é conhecido como um personagem brasileiro;

– Apesar de não se indicar a localização da cidade onde se passa a história, é seguro presumir que seja nos EUA, primeiro porque todas as histórias pulp que os brasileiros conheciam vinham de lá e segundo por que todos os nomes eram americanos;

– O alterego do Garra Cinzenta é “Doutor Stone”.

 

 

 

 

 

 

 

Edições anteriores:

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

Deixe um comentário

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *