Sarjeta do Terror #4 – Asilo Arkham: Uma séria casa num sério mundo

Sarjeta do Terror #4 – Asilo Arkham: Uma séria casa num sério mundo

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Popularmente, o terror é dito como um gênero para “dar medo”. Eu discordo profundamente dessa caracterização, por diversos motivos, dos quais vou citar apenas dois:

Primeiro, “medo” é uma emoção profunda e forte do ser humano, uma emoção negativa* que não é nem um pouco divertida. Ninguém que tem medo de altura vai achar uma boa ideia andar numa montanha russa, e ninguém que tem medo de aranhas vai achar divertido ficar trancado em um banheiro com uma delas.

É importante lembrar que, antes de tudo, o terror como gênero narrativo é, ainda assim, catarse; não é uma “realidade virtual” que reproduz fielmente o mundo real, e sim uma “experiência controlada” onde, por mais intensa que seja, sabemos que podemos sair dali quando quisermos. É como uma montanha russa, ou um trem fantasma em um parque de diversões: Nós entramos sabendo que, no fim das contas, não há risco real. O sentimento trazido pelas histórias de terror está mais para o que especialistas do gênero como Nöel Carrol chamam de “art-horror”, ou seja, uma imitação das emoções reais, não a emoção per se.

Segundo que, frequentemente, se usa a palavra “medo” nas histórias de terror como sinônimo de “susto”. Enquanto o primeiro é uma emoção real, o segundo é apenas uma ferramenta para uma história – não apenas uma história de terror – e que hoje tem sido usado como uma fórmula em filmes mais pasteurizados, em especial os filmes de terror de Hollywood. “Medo” e “susto” não são a mesma coisa.

Dito isso, as histórias de terror nas mais diversas mídias sempre balançam dentro de um espectro que vai do pueril ao “longe demais”, e talvez seja exatamente isso que torne o terror interessante: a busca por um equilíbrio entre a catarse e o sentimento real.

No caso dos quadrinhos, as duas grandes editoras (Marvel e DC) não costumavam ter a tradição de cruzar estas fronteiras e normalmente tratavam suas histórias de terror do jeito mais simplista (talvez por estarem mais acostumados com os super-heróis, um conceito pueril por natureza, mas principalmente pelas limitações instituídas pelo Comic Code Authority). Foi apenas quando essas editoras começaram a desafiar o Comic Code que começamos a ver, dentro do “mainstream”, histórias mais arriscadas em termos de conteúdo e forma. É nesse caldeirão de “subversão” do mainstream que surgiu a hq que, pra mim, é uma das melhores histórias de terror já produzidas por grandes editoras: Asilo Arkham.

Uma das grandes vantagens das histórias do Batman é a variedade de gêneros com as quais nós podemos encaixar o personagens e os elementos de sua “mitologia”. Um dos lugares que é presença constante nas histórias do homem-morcego é o Asilo Arkham, sanatório onde se encontram os mais perigosos e psicóticos vilões do personagem (não por acaso praticamente todos eles). O sanatório foi construído por Ammadeus Arkham, que teve uma vida bastante perturbada, tendo enlouquecido logo após sua família ter sido assassinada por um maníaco que posteriormente veio a ser interno do asilo.

Asilo Arkham – Uma séria casa num sério mundo (Arkham Asylum: A serious house on serious earth) é uma Graphic Novel originalmente publicada em 1989 pela DC Comics e cujo protagonista é Batman e os internos do Asilo Arkham. Escrita por Grant Morrison e Ilustrada por Dave Mckean (colaborador usual de Neil Gaiman), a Graphic Novel usa um motim dos internos do sanatório liderado pelo Coringa para fazer uma assustadora viagem pela mente humana.

A história conta com duas narrativas principais: A história de Ammadeus Arkham, o fundador do asilo, contada através de seu diário, e o motim liderado pelo Coringa, onde os vilãos têm apenas uma exigência: a presença de Batman entre eles. Batman terá então de adentrar no Asilo e acabar com o motim, antes de ser devorado pela loucura do Arkham, um lugar tão perturbador que, em dado momento, Batman precisa cortar a si mesmo para manter a sanidade.

Embora utilize o universo do Homem-Morcego, a Graphic Novel é muito mais do que uma simples história de “herói”. É uma perturbadora visão da humanidade do ponto de vista dos loucos. A história, além de assustadora, nos faz refletir sobre uma série de aspectos estabelecidos na nossa sociedade, como a origem da loucura, o que é realmente ser louco, e mais importante: Qual “realidade” é a verdadeira: a nossa, ou a deles? Parte do sucesso da obra se deve ao fato de ter sido feita como uma resposta ao crescente “realismo” aplicado principalmente às histórias do Batman, o que tornara o personagem um psicótico atormentado. Asilo Arkham é, sem fugir à essência do personagem, uma obra complexa e psicologicamente densa, mas ainda com um caráter mítico com o qual Morrison se sente tão à vontade em trabalhar.

A Graphic Novel ainda conta com citações a Lewis Carrol e sua obra mais famosa, Alice no País das Maravilhas e lembra bastante os contos góticos de Edgar Allan Poe e o terror psicológico de H.P. Lovecraft. Leitura altamente recomendada para os fãs do Homem-Morcego, mas principalmente para os fãs de Terror. Também possui uma coleção de “frases de efeito” próprias, assustadoras e perturbadoras por si só, que já valem a leitura.

Curiosidades:

– A relação do homem morcego com o Terror não é nova; na verdade, em toda a sua história e desde sua criação, Batman foi muito influenciado por esse gênero e diversas homenagens foram prestadas em elementos da cidade, nomes ou personagens. Sua origem, segundo os próprios criadores – Bob Kane e Bill Finger – tem raízes principalmente nas histórias do Zorro e em um filme pouco conhecido de 1926 pelo público de hoje, The Bat (O morcego). Conceitos do personagem como a capa e o capuz em forma de morcego com o intuito de ser ameaçador e o Batsinal estão entre os elementos inspirados neste filme, que teve ainda duas outras versões: Em 1930, com o nome The The Bat Whispers (e dirigido pelo mesmo diretor do original) e um remake em 1959, estrelado por Vincent Price.

– Alguns dos principais vilões do Batman são inspirados por diversas obras do gênero de terror. O Coringa, por exemplo, foi inspirado em um filme de 1928 chamado The Man Who Laughs (O homem que ri), que é a adaptação de um romance pouco conhecido de Vitor Hugo.

– O “Homem-Mariposa”, famosa lenda urbana americana (que inclusive foi tema de um filme chamado “A última profecia”, tem esse nome por que lembrava (ainda que vagamente) vilão do Batman Mariposa Assassina.

– Arkham é o nome de uma cidade fictícia que aparece em inúmeros contos de H.P. Lovecraft.

Edições anteriores:

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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