Sarjeta do Terror #50 – Editoras da era de ouro do horror (parte 1)

Sarjeta do Terror #50 – Editoras da era de ouro do horror (parte 1)

Os quadrinhos de terror já passaram por muita coisa, especialmente no ocidente – e em particular nos EUA. Mas o gênero conseguiu sobreviver mesmo durante seu período mais sombrio, onde a censura reinava suprema. E, no anos 50, com a explosão das hqs de horror, não foi só editoras como Marvel, DC e EC que exploraram o gênero. Nesta edição, vamos conhecer um pouco sobre outras editoras que também fizeram parte da história dos quadrinhos de terror nos EUA.

Fiction House (1921-1955)
Mais lembrada por ser uma editora de hqs pulp, a Fiction house navegou por diversos gêneros durante sua existência, mas ficou popular pelas capas pin-ups (conhecidas nos EUA por “Good Girl Art”), especialmente nas histórias de sua personagem mais popular, Sheena, Queen of the Jungle. Mas a Fiction House também publicou hqs de horror, das quais duas se destacam Ghost Comics (1951-1954), que durou 11 edições, e Monster (1953), que durou apenas 2 edições (a primeiro intitulada “Monster”, a segunda, “The Monster”).

Apesar das capas apelativas, uma das características que diferenciava a Fiction House de outras editoras da época era o destaque para protagonistas femininas fortes e eficientes que tinham o comando das situações (como mencionado por Trina Robbins). Infelizmente, a veia relativamente feminista da editora não impediu que suas hqs fossem alvo do psiquiatra Frederic Wertham no livro A Sedução do Inocente. A perseguição às hqs criminais e de horror e que figuravam mulheres atraentes, aliada à ascensão da televisão, acabou colocando a Fiction House fora do mercado em 1955.

 

Better/Nedor/Standard/Pines (1936-1959)
Fundada originalmente em 1936 por Ned Pines, a Standard Comics era uma editora guarda-chuva que contava também com a Better Publications e Nedor Publishing (por isso é conhecida coletivamente como Better/Nedor/Standard).

Merecem destaque entre as hqs de horror da Better/Nedor/Standard: Adventures into Darkness, Out of the Shadows e The Unseen (1952-1954), que tiveram entre seus artistas Alex Toth, Ross Andru e Jack Katz. As duas primeiras duraram 10 edições, enquanto a última durou 11. O grupo encerrou as atividades oficialmente em 1956, mantendo apenas dois títulos sob o nome de Pines Comics, que durou até 1959.

 

Fawcett Comics (1938-1980)
Mais conhecida por ser a editora original das aventuras do Capitão Marvel e sua família, a Fawcett Comics foi a divisão de quadrinhos da Fawcett publications, editora que existira desde 1919. Começou a publicar quadrinhos a partir de 1939 e, além dos super-heróis, também teve sua cota de quadrinhos de terror.

Entre as publicações da Fawcett, destacam-se This Magazine is Haunted (1951-1953), que durou 14 edições e sobreviveu ao fim da editora, na Charlton; Strange Suspense Stories, Beware! Terror Tales e Worlds of Fear (1952-1953), que duraram 5, 8 e 9 edições, respectivamente; além das edições únicas Worlds Beyond (1951) e Unknown World (1952).

Apesar de ter sido uma das editoras mais populares durante a era de ouro dos quadrinhos, a queda de vendas do mercado, aliada ao processo enorme que recebeu por parte da National Comics (futura DC Comics, que alegava que o Capitão Marvel era uma violação de direitos autorais por ser um plágio do Superman) acabou forçando a Fawcett a encerrar suas atividades em 1953. Alguns títulos foram vendidos para a Charlton e, nos anos 70, a DC Comics adquiriu os direitos do Capitão Marvel (atualmente Shazam), que mais tarde compraria definitivamente. Nos anos 60, a editora retornou publicando principalmente hqs do personagem Dennis, o Pimentinha, mas sem o mesmo sucesso de outrora.

 

American Comics Group/ACG (1939-1967)
Fundada por Benjamin W. Sangor e Fred Iger, a American Comics Group passou a usar o nome ACG a partir de 1943 e publicou hqs dos mais diversos gêneros, incluindo horror. A editora publicou algumas das revistas continuadas de maior duração do período, além de ser responsável pela publicação que é considerada a primeira hq regular de antologia dedicada exclusivamente ao horror, Adventures into the Unknown (1948-1967), que teve vida longa, totalizando 147 edições.

Outras hqs da ACG incluem Forbidden Worlds (1951-1967), que durou 145 edições; Skeleton Hand in Secrets of the Supernatural (1952-1953), que durou apenas 6 edições; Out of the Night (1952-1954), que durou 17 edições, sendo substituída por The Hooded Horseman; e edição única The Clutching Hand (1954).

A ACG foi uma das poucas editoras que sobreviveu às audiências do Senado de 1954 que consolidaram o Comics Code Authority, conseguindo inclusive manter a publicação de títulos como Adventures into the Unknown – embora com conteúdo bem mais diluído. A editora encerrou as atividades em 1967.

 

Ace Magazines (1940-1956)
Desde 1928, a A. A. Wyn’s Magazine Publishers publicara revistas pulp e, em 1940, seus líderes fundaram a Ace Magazines e começaram a publicar também hqs de diversos gêneros, mas especialmente super-herói e horror.

Entre as hqs de horror publicadas pela editora, destacam-se Challenge of the Unknown (1950), que durou apenas uma edição, mas deu lugar para The Beyond (1950-1955), que durou 30 edições; Hand of Fate (1951-1955), surgida após o fim da revista Men Against Crime, que durou 19 edições; Web of Mystery (1951-1955), que totalizou 29 edições; e Baffling Mysteries (1951-1956), que continuou com o fim da revista Indian Braves e, ao fim de 26 edições, transformou-se na revista Heroes of the Wild Frontier.

A Ace Magazines encerrou as atividades em 1956, vítima do Comics Code e da censura aos quadrinhos de horror da época.

 

Ajax-Farrell (1940-1958)
Farrel é o nome “guarda-chuva” de uma série de editoras, entre elas o selo Ajax, que publicava principalmente hqs de horror. A maior parte dessas hqs era produzida pelo S.M. Iger Studio, de Jerry Iger (não era parente do dono da ACG), parceiro de Will Eisner e co-fundador da Eisner & Iger, estúdio que produzira hqs sob demanda para editoras diversas entre os anos 30 e 40.

Entre as hqs da Ajax, vale destacar a antologia Haunted Thrills (1952-1954), que teve longa duração e totalizou 18 edições; Dark Shadows (1953-1954), uma antologia mista, que não publicava apenas horror, mas também aventura, crime e fantasia, e que durou apenas 3 edições; Voodoo (1952-1955), a hq de horror mais duradoura da editora, totalizando 19 edições; Strange Fantasy (1952-1954), com 14 edições; Fantastic Fears (1953-1954), uma antologia que durou 9 edições, depois se tornou Fantastic Comics (1954), que misturava também sci-fi e durou apenas 2 edições; Midnight e Strange (1957-1958), com apenas 6 edições publicadas; e Strange Journey (1957-1958), com apenas 4 edições.

A editora praticamente parou de publicar hqs de horror lá por 1955, tentando retomar o gênero em 1957, com histórias remasterizadas para se encaixar nos critérios do Comics Code, mas o resultado foram histórias incoerentes que não conseguiram conquistar vendas. A Farrell encerrou as atividades cmpletamente em 1958.

 

Avon Periodicals (1941-)
Criada em 1941 pela American News Company (a maior distribuidora de impressos dos EUA na época) para ser rival da editora Pocket Books, a Avon se dedicou a publicar histórias com apelo popular na época, ou seja, narrativas criminais sensacionalistas, histórias de fantasmas, entre outros. A partir de 1945, começou a publicar também histórias em quadrinhos de diversos gêneros, como horror, ficção científica, romance, guerra e animais engraçados.

A primeira hq de horror da editora foi uma edição única (one-shot) chamada Eerie, hoje considerada a primeira hq americana dedicada exclusivamente ao gênero de horror. Entre os artistas que participaram da hq estava um iniciante Joe Kubert. Eerie retornou em 1951, dessa vez como revista seriada, durando até 1954 e totalizando 17 números.

A Avon publicou diversas outras edições únicas, a maioria antologias que usavam o título de uma das histórias como título da hq, entre elas Attack on Planet Mars (1951), uma adaptação (não autorizada) do romance “Tarrano the Conquerer”, que tinha arte de Joe Kubert, Carmine Infantino e Wally Wood; Phantom Witch Doctor (1952), com quatro contos em hq e duas em texto; City of the Living Dead (1952); Dead Who Walk (1952); Flying Sauders (1952), com arte de Wally Wood; e Night of Mystery (1953), também com quatro contos em hq e duas em texto.

Além das edições únicas, a editora também publicou Strange Worlds (1950-1955), antologia sci-fi de suspense/horror que durou 14 edições, e Witchcraft (1952-1953), que durou apenas 6 edições. Embora exista até hoje (tendo se transformado em um selo da editora HarperCollins), a Avon só publicou quadrinhos até cerca de 1955.

 

Prize/Crestwood/Feature (1940-1968)
A história desta editora (cujo nome guarda-chuva era Crestwood, também conhecida como Feature Publications) começou com a Prize Publications, que publicava a revista pulp Prize Comics. A partir da edição de número 7 (1940) da revista, Dick Brifer estreou uma história seriada de 8 páginas chamada “New Adventures of Frankenstein”, baseada na clássica história de Mary Shelley. Essa releitura é considerada a primeira história seriada de horror no quadrinhos. A história deu origem a uma revista própria, Frankenstein (1945-1954).

Outra hq da Prize que merece destaque é Black Magic (1950-1961). Essa antologia de horror era produzida pelo estúdio de Joe Simon e Jack Kirby e tinha como característica um horror mais na linha “suspense psicológico”, sem cenas explícitas. A hq durou 50 edições, dando lugar à hq de humor Cool Cat por mais 3 edições. Outra hq de horror da Prize foi Strange World of Your Dreams (1952-1953), que durou apenas 4 edições.

A Crestwood/Prize parou de publicar quadrinhos em 1963 e seguiu publicando revistas de romance até 1968. Suas propriedades intelectuais foram compradas pela DC Comics.

 

Bem, a ideia era fazer um único post, mas a matéria ficou grande demais, então tive que dividi-la em duas. Mês que vem tem mais.

 

Curiosidades:

– Diversas históias da Ace Magazines foram usadas como exemplos de imagens violentas e agressivas demais nas audiências do Congresso americano que investigou a influência dos quadrinhos na delinquência juvenil e que levou ao Comics Code Authority, incluindo Challenge of the Unknown #6, Crime Must Pay the Penalty #3 e Web of Mystery #19. Western Adventures Comics #3 foi usado como exemplo no livro A Sedução do Inocente;
– Embora personagens com os mesmos nomes dos personagens da Ace apareceram em outros lugares (como Captain Victory, do Jack Kirby e diversos personagens da DC chamados Black Spider), os personagens da Ace propriamente ditos só foram reutilizados em 2008 pela Dynamite, durante o “Project Superpowers”, que trazia diversos personagens considerados de domínio público;
– A American News Comic (que fundou a Avon Periodicals) dominava o mercado de distribuição desde o século 19. Tanto seu abrupto encerramento causou uma grande turbulência no segmento editorial americano, forçando muitas editoras de revistas, livros e quadrinhos a fecharem;
– A capa de Challenge of the Unknown foi usada na primeira edição da brasileira Terror Negro, quando a hq deixou de ser uma revista de super-herói protagonizada pelo personagem homônimo para se tornar uma antologia de horror;
– Depois de 1957, quase todas as hqs da ACG eram escritas pelo editor Richard E. Hughes usando uma variedade de pseudônimos;
– O personagem mais conhecido publicado pela Nedor provavelmente é o Terror Negro que, apesar do nome, não é uma personagem de terror, e sim um super-herói. No entanto, no Brasil, o Terror negro emprestou seu nome para a primeira publicação regular de terror brasileira;
– Outros personagens da Better/Nedor/Standard foram usados por Alan Moore nas histórias de Tom Strong. E nomes como American Eagle, Grim Reaper e Wonder Man foram usados, mais tarde, pela Marvel, em personagens diferentes;
– The New Adventures of Frankenstein, publicada em Prize Comics (Prize/Crestwood) durou como série de terror até 1945, quando se tornou uma série de humor (ales mantiveram as histórias do personagem, mas passaram a escrever como comédia), até ser revivido em 1952, novamente como uma série de terror;
– A revista Black Magic foi um dos primeiros trabalhos de Steve Ditko nos quadrinhos.

 

Edições anteriores:

49 – The Heap, o pai dos monstros do Pântano

48 – Criadores de Terror: Steve Ditko

47 – 30 Dias de Noite

46 – Irmãs dos Contos da Cripta

45 – Contos da Cripta, dentro e fora dos quadrinhos

44 – Criadores de Terror: Reed Crandall

43 – Skywald Publications e o clima de horror

42 – Vampirella

41 – O Homem Coisa

40 – Os quadrinhos de terror no Brasil: Criadores e Criaturas

39 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 2

38 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 1

37 – Apresentadores de terror (Horror Hosts)

36 – Dylan Dog

35 – Monstro do Pântano (parte 2 de 2)

34 – Monstro do Pântano (parte 1 de 2)

33 – Criadores de Terror: Bernie Wrightson

32 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Estranho

31 – Os 70 anos de Eerie #1

30 – Plantão Sarjeta do Terror – Sombras do Recife

29 – Criadores de Terror: Rodolfo Zalla

28 – Da TV para os quadrinhos: Além da imaginação

27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

26 – Super-heróis com um “pé” no terror: O Espectro

25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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