Sarjeta do Terror #45 – Contos da Cripta, dentro e fora dos quadrinhos

Sarjeta do Terror #45 – Contos da Cripta, dentro e fora dos quadrinhos


Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os atos heroicos dos super-heróis deixaram de ser tão relevantes, fazendo com que a maior parte das HQs do gênero caíssem no esquecimento (o que causou o cancelamento de diversas séries, que só seriam retomadas uma década depois, com o advento da chamada Era de Prata dos Quadrinhos). No seu lugar, um espírito de cinismo e tensão (já caracterizando a Guerra Fria) se abateu sobre o povo americano, fazendo com que outro tipo de HQ se popularizasse, tornando-se um gênero à parte: as hqs de horror. É nesse contexto que surge a revista Tales from the Crypt (Contos da Cripta) que, junto com The Haunt of Fear e The Vault of Horror, formava a tríade de publicações bimestrais da EC Comics voltada para o terror.

As origens da revista Contos da Cripta (e de seu apavorante anfitrião, o Guardião da Cripta) remonta às hqs policiais publicadas pela EC Comics no fim dos anos 40, onde William Gaines (o grande nome da EC) e seu editor Al Feldstein começaram a experimentar o terror (gênero do qual gostavam muito) aos poucos nas histórias. Tais experimentações levaram à história “Return from the Grave”, na revista Crime Patrol, que era uma história de terror já nos moldes do que se veria mais adiante – e também apresentava pela primeira vez o Guardião da Cripta. Uma edição depois, Crime Patrol já contava com mais histórias de terror do que policiais, seu título foi alterado de Crime Patrol para “Tales from the Crypt of Horror”, mantendo seu formato original por mais 4 edições, até se tornar a revista de terror conhecida.

Apesar de ser oficialmente o anfitrião da revista, apresentando as histórias, o Guardião da Cripta também foi personagem em algumas delas, em aparições que revelavam alguns detalhes de sua biografia, como em Tales from the Crypt #33, cuja a história “The Lower Berth conta as circunstâncias do nascimento do personagem. Mas suas histórias também foram publicadas em The Vault of Horror #34, cuja história “While the Cat’s Away” nos leva a conhecer mais sobre a casa do Guardião da Cripta, e The Haunt of Fear #17, onde a história “Horror beneath the Streets” nos conta como ele e os outros anfitriões das revistas conseguiram seus “contratos” de publicação com a E.C.

O processo para criação das histórias era simples, mas eficiente: William Gaines lia um grande número de histórias de terror e as usava como modelo para contos das revistas. Entre as histórias que foram influência para os Contos da Cripta estavam “O intruso”, de H.P. Lovecraft (base para as histórias “Reflection of Death” e “Mirror, MIrror on the Wall”); Vampyr, de Carl Theodor Dreyer (base para a história “Shadow of Death”); O Caso do Sr. Valdemar, de Edgar Allan Poe (base para a história “The Living Death”); entre outros.

Contos da Cripta contou com diversos artistas, entre eles Al Feldstein, Johnny Craig, Wally Wood e Jack Davis, que faziam tanto capas quanto arte interna, além de George Evans, Jack Kamen, Graham Ingels, Harvey Kurtzman, Al Williamson, Joe Orlando, Reed Crandall, Bernard Krigstein, Will Elder, Fred Peters e Howard Larsen.

Tales From The Crypt, The Vault of Horror e The Haunt of Fear foram 3 revistas de muito sucesso durante os anos 50, mas que infelizmente não passaram das 30 edições (tendo sido publicadas até a edição 27, 29 e 28, respectivamente), tudo por conta da “caça às bruxas” liderada por Fredric Wertham, que levou à criação do Subcomitê do Senado Americano sobre Delinquência Juvenil, cujo principal alvo foram as histórias policiais e de terror da EC Comics – o que infelizmente acarretou no fechamento da editora com a instituição do Comics Code Authority, um “código de conduta” do que podia e não podia se fazer nos comics (mas que era apenas um outro sinônimo para “censura”) e que simplesmente invalidava todas as histórias da EC, já que esta se focava em títulos com temas adultos.

Assim, a EC Comics, e consequentemente a revista Contos da Cripta chegaram ao fim, lamentavelmente. Mas esta não seria a última vez que veríamos o Guardião da Cripta e suas histórias macabras.

 

Na TV

Em 1989, o canal a cabo HBO resgatou do limbo a série em quadrinhos, adaptando-a para uma série do canal, num formato de antologia semelhante à séries como Além da Imaginação e Contos da Escuridão, onde cada episódio era uma história independente com começo, meio e fim. Todas, é claro, introduzidas pelo Guardião da Cripta, marca registrada da antologia em todas as suas adaptações.

Muito dos episódios eram baseados ou adaptados de 5 títulos que a EC publicava nos anos 50 (Tales from the Crypt, The Vault of Horror, The Haunt of Fear, Crime SuspenStories e Shock SuspenStories). Com o tempo, a série passou a seguir seu próprio caminho com histórias originais. Contos da Cripta – a série durou até 1996 e teve 7 temporadas.

Além da série para o público adulto, Contos da Cripta também encontrou um nicho na TV para o público infantil quando, aproveitando-se do sucesso da série live action, a kaBOOM! Entertainment, junto com a divisão de TV da Warner Bros, produziu uma série animada chamada “Tales from the Cryptkeeper” (ou Contos do Guardião da Cripta). O desenho durou 3 temporadas, de 1993 a 1997.

Quando a série live action se encerrou, uma espécie de spin-off foi produzida para tomar o seu lugar. Com o título de “Perversions of Science”, a produção focava a ficção científica ao invés do terror, tendo como anfitriã Chrome, uma robô estilizada em formas femininas no lugar do Guardião da Cripta. Diferente de seu análogo de terror, Perversions of Science teve vida curta, durando apenas 10 episódios.

Em 2016 foi anunciada uma nova versão da série pelas mãos de M. Night Shyamalan (de O Sexto Sentido, Corpo Fechado e Fragmentado), que seria veiculada no bloco de horror do canal TNT. Infelizmente, em 2017, foi anunciado que a série seria engavetada por conta de problemas com licenciamento.

 

No cinema

Bem antes da série de TV, mais precisamente em 1972, a produtora britânica Amicus trouxe uma adaptação cinematográfica baseada na série de quadrinhos da EC Comics. Na história, 5 estranhos que estão em um tour por catacumbas antigas acaba se separando do grupo e indo parar em um cômodo onde reside o apavorante Guardião da Cripta, que detalha como cada um deles vai morrer. Apesar de ser uma única história, o filme contém outros 5 contos baseados (direta ou indiretamente) nas revistas clássicas da EC.

Com o sucesso da série de TV e seu subsequente encerramento, seguiu-se a tentativa de levar os Contos da Cripta para os cinemas americanos. A primeira delas, em 1995, foi o relativamente bem-sucedido (já que superou seus custos de produção) Demon Knight (Os Demônios da Noite no Brasil – reparem que traduziram “Knight” – cavaleiro – como “Night” – “Noite”).

Na história, um ser demoníaco persegue Brayker, um homem misterioso que tem nas mãos um antigo amuleto capaz de impedir que forças maléficas destruam a humanidade. Em sua fuga desesperada, Brayker se esconde em um hotel vagabundo de beira de estrada. O ser maligno chega até lá e, para enfrentar Brayker e os hóspedes do lugar, conjura um horripilante bando de mortos-vivos sedentos de sangue.

Após o sucesso de Os Demônios da Noite, uma nova produção cinematográfica derivada da série foi lançada em 1996: Bordello of Blood (Bordel de Sangue, no Brasil). Diferente da película anterior, Bordel de Sangue leva a narrativa mais para o lado do humor (mesmo não esquecendo o terror, que é a base dos Contos da Cripta).

Em Bordel de Sangue, vemos a assessora de um reverendo que luta pela moralidade contratando um detetive para encontrar seu irmão desaparecido. As investigações o levam a um bordel repleto de vampiras lindas, sedutoras e sedentas de sangue.

Além de Os Demônios da Noite e Bordel de Sangue, também foi lançado, em 2002, Ritual, que conta a história da Dra. Alice Dogson, que tem sua licença revogada e é demitida após a morte de um paciente. Depois de temer palavras de um paciente sobre cultos vodus, viaja para a Jamaica, onde percebe que ela e seu paciente Wesley Clayrbone são alvo de um culto vodu. O filme é o menos conhecido dos 3 e, até agora, o último da cinessérie cinematográfica.

Contos da Cripta é indispensável para qualquer entusiasta do gênero de terror, seja nos quadrinhos, na TV ou no cinema. Um clássico cult que nunca vai ser esquecido.

 

Curiosidades:

– Não era apenas Contos da Cripta que tinha seu anfitrião macabro: The Vault of Horror contava com o Guardião do Jazigo (The Vault Keeper) e The Haunt of Fear contava com a Velha Bruxa (The Old Witch). Essa divisão não era rígida e esses anfitriões frequentemente apareciam nas outras revistas também;
– Para vocês terem uma ideia do sucesso que as histórias de terror faziam na época, a EC lançou, em 1954, a Three Dimensional Tales from The Crypt of Horror, uma antologia trimestral que reciclava histórias já publicadas na revista principal, com a diferença de serem impressas em 3D anaglifico (aqueles que você precisa de um óculos de papel com lentes de papel celofane azul e vermelho – e isso nos ANOS 50, para você que pensa que 3D é uma moda recente). Cada edição vinha com um óculos 3D. A publicação vendia muito e é considerada um clássico, embora não tenha durado muito por uma série de fatores (não só a questão do Comics Code mencionada na matéria, mas principalmente fatores técnicos, como o custo da impressão, entre outros);
– Após publicar uma adaptação não autorizada de Ray Bradbury, o autor contatou a E.C e chegou a um acordo para publicar adaptações autorizadas de seus contos, que incluem “There Was and Old Woman”, publicada na edição 34 de Contos da Cripta; e “The Handler’, publicada na edição 36;
– Em 2007, uma editora independente chamada Papercutz decidiu ressuscitar o título mostrando novas histórias. A primeira edição contou com capa de Kyle Baker e trazia os 3 anfitriões mais famosos da EC (O Guardião da Cripta, o Guardião do Jazido e a Velha Bruxa). Foram publicadas 13 edições até 2010;
– O Guardião da Cripta visto na série de TV difere visualmente do seu correlato nos quadrinhos. Enquanto o Guardião das HQs da EC Comics era um ser humano, o anfitrião da produção televisiva era um morto vivo decrépito. O filme britânico, no entanto, se manteve fiel ao visual original das hqs;
– Diversos atores e celebridades conhecidas atuaram na série, seja como protagonistas ou apenas ocmo participações especiais, entre eles Dan Aykroyd, Hank Azaria, Steve Buscemi, Daniel Craig, Tim Curry, Timothy Dalton, Roger Daltrey, Benicio del Toro, Kirk Douglas e seu filho Eric Douglas, Brad Dourif, Whoopi Goldberg, Bobcat Goldthwait, Teri Hatcher, Marg Helgenberger, Mariel Hemingway, Lance Henriksen, Bob Hoskins, Margot Kidder, John Lithgow, Andrew McCarthy, Dylan McDermott, Malcolm McDowell, Costas Mandylor, Ewan McGregor, Meat Loaf, Demi Moore, Donald O’Connor, Joe Pantoliano, Bill Paxton, Bruce Payne, Joe Pesci, Brad Pitt, Iggy Pop, Christopher Reeve, Natasha Richardson, Mimi Rogers, Tim Roth, Martin Sheen, Brooke Shields, Slash, John Stamos, Jeffrey Tambor, Lea Thompson, David Warner, Steven Weber, Adam West e Treat Williams, apenas para citar alguns;
– Entre diretores famosos da série estão Michael J. Fox, Tom Hanks, Kyle MacLachlan e Arnold Schwarzenegger, além de diretores renomados como Robert Zemeckis (Forest Gump), Richard Donner (Superman o Filme), John Frankenheimer (A Ilha do Dr. Moreau, de 1996), William Friedkin (O Exorcista), Walter Hill (do clássico musical Crossroads), Tom Holland (A Hora do Espanto), Tobe Hooper (Poltergeist), Mary Lambert (Cemitério Maldito), Peter Medak (A Troca) e Russell Mulcahy (Resident Evil 3: A Extinção);
– A abertura da uma das temporadas da série animada Tales from the Cryptkeeper contava com a aparição do Guardião do Jazigo e da Velha Bruxa, anfitriões das antologias da EC The Vault of Horror e The Haunt of Fear, respectivamente;
– All Through the House, Blind Alleys, e Wish You Were Here, 3 dos 5 contos dentro de Contos da Cripta – O Filme foram mais tarde adaptados de alguma forma em episódios da série de TV americana;
– Os rascunhos originais da cinessérie de Contos da Cripta contavam com uma trilogia, que se iniciaria com Os Demônios da Noite e seguiriam com Dead Easy (um filme de zumbis) e Body Count, uma história original. O artefato do primeiro filme apareceria nas duas sequências, o que não aconteceu com todos os filmes que de fato foram lançados;
– Embora não seja uma sequência direta de Os Demônios da Noite, Bordel de Sangue traz uma aparição do artefato que é a base do filme anterior;
– Ritual é uma releitura do filme I Walked with a Zombie (1943), considerado a primeira produção cinematográfica sobre zumbis;
– Ritual nunca foi lançado nos EUA, tendo sido distribuído apenas internacionalmente;
Os Espíritos, filme dirigido por Peter Jackson, era para ser um filme dentro da cinessérie de Contos da Cripta, mas foi lançado como algo independente quando Robert Zemeckis leu o roteiro e achou que ele merecia ser “autônomo”.

Edições anteriores:

44 – Criadores de Terror: Reed Crandall

43 – Skywald Publications e o clima de horror

42 – Vampirella

41 – O Homem Coisa

40 – Os quadrinhos de terror no Brasil: Criadores e Criaturas

39 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 2

38 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 1

37 – Apresentadores de terror (Horror Hosts)

36 – Dylan Dog

35 – Monstro do Pântano (parte 2 de 2)

34 – Monstro do Pântano (parte 1 de 2)

33 – Criadores de Terror: Bernie Wrightson

32 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Estranho

31 – Os 70 anos de Eerie #1

30 – Plantão Sarjeta do Terror – Sombras do Recife

29 – Criadores de Terror: Rodolfo Zalla

28 – Da TV para os quadrinhos: Além da imaginação

27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

26 – Super-heróis com um “pé” no terror: O Espectro

25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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