Sarjeta do Terror #43 – Skywald Publications e o clima de horror

Sarjeta do Terror #43 – Skywald Publications e o clima de horror

O Comics Code Authority, surgido nos anos 50, foi uma marca que fez muito estrago nos quadrinhos, em particular nos quadrinhos de crime e horror. Algumas editoras sobreviveram contornando os critérios do código e lançando quadrinhos no formato magazine (como a Warren Publishing) e, nos anos 70, houve uma pequena vitória para as editoras com certa flexibilização do código que, embora ainda restrito, começava a permitir ao menos algumas coisas. Assim, Marvel e DC puderam retomar títulos e histórias de horror (embora de uma forma bem limitada em termos do tipo de história que poderiam contar) e outras editoras puderam tentar a sorte no gênero. Foi o caso da Skywald Publications.

Apesar de ter sido fundada nos anos 70, a história da Skywald remete aos anos 50, mais especificamente à I.W Publications. Criada por Israel Waldman, a editora lançava revistas com republicações de histórias antigas de editoras falidas como a Quality Comics (de forma não autorizada). A I.W. durou de 1958 a 1964, publicando personagens conhecidos na época como The Avenger (1958), Nemo in Adventureland (1964), Doll Man (1963), Plastic Man (1963) e até The Spirit (1963). O gênero de horror não ficou de fora, com revistas como Strange Worlds (1958), Strange Mysteries (1958), Mystery Tales (1958), Eerie (1958) e Eerie Tales (1963), entre outros. Todos os títulos tiveram vida curta (a maioria não passava da terceira edição).

Após o fim da I.W., Waldman se juntou a Sal Brodsky, editor de longa data da Marvel Comics que havia saído da editora, e fundou a Skywald. Brodsky trouxe Al Hewetson, que havia sido assistente do Stan Lee por um curto período e era também roteirista freelancer na Warren, para escrever na editora. Hewetson, ou “Archaic Al“, como era conhecido, logo se tornou o próprio editor da empresa, uma vez que a saída de Brodsky da Marvel acabou sendo temporária e ele logo retornou à casa das ideias.

Hewetson gerenciava o editorial da sua própria casa, no Canadá, apesar da Skywald ter base em Manhattan. O processo era incomum: Archaic Al escrevia suas histórias e editava as histórias de outros de casa, enviava por correio para os artistas que desenhavam e mandavam para Nova Iorque. De tempos em tempos, o editor visitava NY, onde conferia o material, produzia e finalizava as edições e o calhamaço resultante era enviado por correio para as gráficas, que enviava as provas para a editora. Depois de tudo conferido e aprovado, as revistas eram mandadas para serem impressas no Canadá e então transportadas para Connecticut e, a partir daí, para diversos outros centros de distribuição – inclusive de volta para o Canadá. Lembrando que esta era uma era pré-internet, ou seja, tudo o que tinha que ser enviado para lá e para cá era físico, não virtual (roteiros, artes, revista editada, etc). Imagina o trabalhão.

Talvez um pouco diferente do que Brodsky imaginava, Al Hewetson tinha em mente uma direção mais “literária” e menos “cópia da Warren”. Assim, desenvolveu o que ele chamou de “horror mood” (algo como “clima de horror”, em tradução livre), que era sua tentativa de criar histórias que evocassem autores como Edgar Alan Poe, H.P. Lovecraft e Franz Kafka. Como a própria expressão sugere, Archaic Al não estava em busca de temas ou formatos narrativos específicos, e sim de um tipo de “sensação” ou “clima” que permeasse as revistas. Com isso em mente, nasceu Nightmare (1970), Psycho (1971) e Scream (1973), provavelmente as mais conhecidas da editora. As 3 eram publicadas no formato magazine, de forma semelhante à Warren, o que tornava, aos olhos do público, o material mais “sofisticados” que os “comic books” (bastante depreciados após o Comics Code).

 

Revistas em formato magazine

Nightmare tinha como carro chefe uma sequência de Frankenstein escrita por Tom Sutton, além de uma tira de Al Hewetson desenhada por Maelo Cintron chamada Human Gargoyles. Psycho publicava The Heap e adaptações da literatura vitoriana, especialmente de Edgar Alan Poe, enquanto que Scream tinha material semelhante às duas, com destaque para The saga of The Victims, uma história nonsense exploitation que trazia duas protagonistas femininas tendo que lidar com criaturas bizarras. Entre os artistas e autores que passaram por essas revistas estavam T. Casey Brennan, Gerry Conway, Steve Englehart, Gardner Fox, Doug Moench, Dave Sim, Len Wein, Marv Wolfman, Rich Buckler, Gene Day Vince Colletta, Bill Everett, Bruce Jones, Pablo Marcos, Syd Shores, Chic Stone e o já citado Tom Sutton, entre outros.

Além da tríade de horror da Skywald, houve também revistas de outros gêneros, como Hell-Rider (1971), criada por Gary Friedrich e Ross Andru, que contava a história de um vigilante que andava em uma moto equipada com um lança-chamas – que usava nos criminosos. Qualquer semelhança com o Motoqueiro Fantasma não é mera coincidência (veja Curiosidades). Outra revista que chegou a ser publicada foi The Crime Machine (1975), que apenas republicava histórias criminais dos anos 50. Ambas as revistas duraram apenas duas edições. A Skywald esteve prestes a publicar uma antologia sci-fi chamada Science Fiction Odissey, mas a revista acabou não saindo porque a editora havia estourado seu orçamento – e a maioria das pessoas na editora não acreditava que uma revista de ficção científica teria boas vendas.

Outras revistas de horror haviam sido planejadas pela editora. Tomb of Horror era para ser uma antologia onde os próprios autores e artistas seriam os horror hosts de suas histórias (de forma semelhante ao que seria feito pela Marvel por um curto período de tempo em Tower of Shadows e Chamber of Darkness). Outra revista planejada era Tales of Horror by Edgar Allan Poe, que republicaria as adaptações do autor vistas previamente em Nightmare e Scream. Infelizmente, esses planos acabaram indo por água abaixo com o fim da editora. Algumas histórias já preparadas, no entanto, puderam ser publicadas nas últimas edições de NIghtmare, Psycho e Scream.

 

Comic Books

A Skywald também publicou revistas em quadrinhos propriamente ditas, ou seja, histórias no formato “comic book”, numa linha editada por Brodsky. Entre as revistas estavam as séries de Western Blazing Six-Guns, The Bravados, Butch Cassidy, The Sundance Kid e Wild Western Action (1971), o título de romance Tender Love Stories (1971), Jungle Adventures (1971) e, no campo do horror, a série The Heap (1971), uma versão diferente do personagem criado nos anos 40 pela HIllman Publications. Entre os autores e desenhistas estavam Dick Ayers, Mike Friedrich, Jack Katz, John Severin, e John Tartaglione, além de outros já citados que participavam das revistas formato magazine.

 

O fim da Skywald – culpa da Marvel?

Apesar do aparente sucesso de vendas, a Skywald teve vida curta, apenas 5 anos. Em uma entrevista realizada em 2003, Archaic Al atribuiu a falência da Skywald principalmente aos distribuidores da Marvel. Segundo o editor, o advento das revistas da Marvel no formato Magazine restringiu o acesso da Skywald às bancas, uma vez que o distribuidor da Marvel era muito mais poderoso e fazia uso de táticas de guerrilha para impedir a distribuição de revistas alheias. Isso acarretou na escassez de títulos da editora nas bancas e a dificuldade cada vez maior dos leitores de encontrarem suas hqs Skywald favoritas, o que levou ao declínio das vendas e, consequentemente, ao fim da editora.

A Skywald Publications foi uma editora com muito potencial. Muito mais do que uma “cópia” da Warren, Skywald era a competição saudável que diversificava o gênero e garantia uma abrangência de histórias muito maior. Não durou muito, mas ficou na história dos quadrinhos de terror.

 

Curiosidades:
– A história da I.W. é curta, mas interessante: Israel Waldman adquiriu uma gráfica que continha diversos materiais de produção de editoras variadas cuja maioria não existia mais, além de algum material nunca lançado. Waldman achou que ter comprado a empresa significava ter os direitos sobre todo esse material e saiu publicando material que, na prática, era não autorizado;
– A última metade do período de existência da I.W. Publications foi sob o nome de Super Comics, pelo qual a editora também é conhecida;
– “Skywald” é a junção dos nomes dos fundadores, Sal Brodsky (Sky) e Israel Waldman (Wald);
– Entre as histórias publicadas em Nightmare, estão os primeiros trabalhos de Michael Kaluta e John Byrne;
– Gary Friedrich, criador de Hell-Rider, também foi, um ano mais tarde, um dos criadores, junto com Roy Thomas e Mike Ploog, do Motoqueiro Fantasma, da Marvel Comics.

 

Edições anteriores:

42 – Vampirella

41 – O Homem Coisa

40 – Os quadrinhos de terror no Brasil: Criadores e Criaturas

39 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 2

38 – Os quadrinhos de terror no Brasil: parte 1

37 – Apresentadores de terror (Horror Hosts)

36 – Dylan Dog

35 – Monstro do Pântano (parte 2 de 2)

34 – Monstro do Pântano (parte 1 de 2)

33 – Criadores de Terror: Bernie Wrightson

32 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Estranho

31 – Os 70 anos de Eerie #1

30 – Plantão Sarjeta do Terror – Sombras do Recife

29 – Criadores de Terror: Rodolfo Zalla

28 – Da TV para os quadrinhos: Além da imaginação

27 – Vigor Mortis Comics – Volume 1

26 – Super-heróis com um “pé” no terror: O Espectro

25 – Warren Publishing: Contornando o Comics Code

24 – Prontuário 666, os anos de Cárcere de Zé do Caixão

23 – Da TV para os quadrinhos: Arquivo X

22 – Criadores de Terror: Eugenio Colonnese

21 – Terror nas grandes editoras, parte final

20 – Terror nas grandes editoras, parte 2

19 – Uzumaki

18 – Terror nas grandes editoras, parte 1

17 – Do cinema para os quadrinhos: Evil Dead/Army of Darkness

16 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte final

15 – Super-heróis com um “pé” no terror: Doutor Oculto

14 – Terror no mundo real: o Comics Code Authority, parte 1

13 – Da TV para os quadrinhos: Elvira, a Rainha das Trevas

12 – EC Comics , epílogo: O Discurso Contra a Censura

11 – Criadores de Terror: Salvador Sanz

10 – EC Comics, parte 3: o fim

9 – Super-heróis com um “pé” no terror: Homem Formiga

8 – Interlúdio: Shut-in (trancado por dentro)

7 – EC Comics, parte 2: o auge

6 – Interlúdio: Garra Cinzenta, horror pulp nacional

5 – EC Comics, parte 1: o início

4 – Asilo Arkham: uma séria casa num sério mundo

3 – A Era de Ouro dos comics de terror

2 – Beladona

1 – As histórias em quadrinhos de terror: os primórdios

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