Preciosa

Preciosa

Dizem que tragédia pouca é bobagem e que nada é ruim que não possa piorar. Parece que esses “sábios ditos” populares foram criados tendo em mente Preciosa. Se você ainda não viu nada a respeito do filme, basta dizer que ela possui uma série de características que a fazem alvo de todos os preconceitos possíveis: negra, obesa, mulher, pobre e analfabeta. Vivendo no Harlem de uma Nova York dos anos 80, sofre com as agressões físicas e verbais da mãe e, mesmo ainda sendo uma adolescente de 16 anos, está grávida do segundo filho (a primeira menina teve síndrome de Down e é criada pela avó). O pai de seus filhos é seu próprio pai, de quem vem sendo abusada sexualmente desde criança.

O filme é belíssimo e muito duro, cruel, tendo em vista a vida da protagonista. Interpretações soberbas, principalmente de Gabourney Sidibe, a Preciosa, e de sua mãe (Mo’Nique), fazem com que você sinta pena, tristeza, raiva e te causem um desconforto tamanho que dá vontade de entrar no filme, arrebentar a cara da mãe e dar um beijo e abraço em Preciosa. Gabourney tem uma cara fechada, marrenta, não permitindo ninguém penetrar em seu mundo. Com uma expressão dura, fria, parece uma montanha intransponível, uma forma de tentar se manter protegida.

Tendo que trocar de escola, passa a conviver com outras colegas e com a professora Rain. Felizmente, por mais que o filme seja trágico, ou com uma história trágica, não recai no lugar-comum da professora que salva seus alunos problemáticos. Não é uma história de salvação ou redenção, não é um Sociedade dos Poetas Mortos, um Ao Mestre com Carinho. A história nem é da professora, é de uma jovem, tornada mulher pelos abusos do pai, que vai enfrentando toda a dor e o sofrimento de sua pobre existência com delírios de grandeza, de brilho e alegria. Algumas vezes, até remetem a uma busca pela “branquização” de seu ser, que enxerga que o padrão de beleza é ser magra, loira, com um namorado branco, etc. Ser feliz, em sua cabeça, também tem a ver com a cor de sua pele. Em sua imaginação, o que ela quer ser é uma estrela, com todos os holofotes a que tem direito.

A direção, fotografia e direção de arte estão excepcionais, e que não se sobrepõem a nada. Tudo casa perfeitamente. Note que, durante o filme, Preciosa carrega, enrolada em seu braço, uma espécie de echarpe vermelha, símbolo da esperança de um dia, ter uma vida melhor como a de seus sonhos. A direção de Lee Daniel é cuidada, dando o espaço para uma excelente atuação de todos em cena.

Preciosa é mais do que um filme, é, acima de tudo uma lição. Um tapa na cara, para nos mostrar que muitas vezes reclamamos de barriga cheia, e que existem pessoas com muito menos do que nós que ainda assim, não perdem a esperança.

Ficha técnica

Título: Preciosa – Uma História de Esperança (Precious: Based on the Book “Push” by Sapphire)

País/Ano/Duração: EUA, 2009 – 110 min

Drama

Direção: Lee Daniels

Elenco: Gabourey “Gabbie” Sidibe, Mo’Nique, Paula Patton, Lenny Kravitz, Mariah Carey, Sherri Shepherd

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