Jack Kirby é o artista mais importante que talvez você não tenha ouvido falar

Jack Kirby é o artista mais importante que talvez você não tenha ouvido falar

O artista que criou tantos super-heróis da Marvel lança uma grande sombra sobre o mundo que vivemos hoje.

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Quando eu era um garoto, eu tinha decidido – usando o tipo de lógica infantil que quase sempre acaba desfeita com a idade e senso comum – que o artista de quadrinhos Jack Kirby não era para mim.

Ter tomado essa decisão foi completamente incomum. Claro, eu era um voraz leitor de quadrinhos, mas não tinha completa noção de quem escrevia ou desenhava os quadrinhos que eu devorava naquela época; o nível de fãnzice estava anos à frente, enquanto a puberdade chegava (por volta da mesma época eu comecei a notar a diferença nas palavras dos balões feitos por John Costanza e Todd Klein – letristas de alto nível que acrescentavam todo o texto aos quadrinhos).

O meu “desgosto” pela arte de Kirby era algo mais, uma rejeição de sua estética como algo feio e deformado e particularmente dissonante aos meus olhos juvenis; eu provavelmente não conseguiria identificar Kirby naquela época, mas poderia dizer com uma ênfase especial que o que ele desenhava não era para mim.

É claro, não fazia idéia de quem era Kirby naquela época. Não tenho certeza se isso teria ou não mudado minha opinião; a idéia de que alguém tinha na verdade co-criado personagens como Capitão América, Thor, Homem de Ferro, o Hulk, os Vingadores, os X-Men ou o Quarteto Fantástico, por si, era algo que eu teria tido dificuldades em desfazer. Alguém criou esses personagens? Eles não existiram, sempre, de alguma forma?

Mesmo assim, mesmo que eu tivesse, de alguma forma, compreendido a ideia de que um homem era responsável – ou, pelo menos, parcialmente responsável – por tantos dos meus então super-heróis e vilões favoritos (Doutor Destino! Galactus! Garra Sônica, cujo olhar e dentes esquisitos eram muito estranhos para mim, da melhor maneira possível!), tenho certeza de que me faria pensar que Kirby era nada mais do que um velho que provou que os padrões costumavam ser muito mais baixos anos atrás.

Não tenho certeza o que mudou primeiro: meu profundo conhecimento do que Kirby trouxe aos quadrinhos – em termos de linguagem visual ao meio, tanto quanto sua infinita criatividade para novos personagens e conceitos –  ou meu apreço à sua real estética. Talvez ambos tenham mudado juntos, um influenciando o outro. Lembro de descobrir personagens que Kirby tinha criado depois da onda inicial de criações da Marvel Comics, e cair sob seu feitiço da mesma forma que o fiz com seu trabalho mais simples e anterior.

Um fato que ajudou foi que aqueles personagens tinham nomes sensacionais como “Darkseid” (pronunciado “Dark Side”, o “Lado Negro”, é claro) e “Orion”, que pareciam ambos familiares e particularmente icônicos através de suas similaridades com o Star Wars de George Lucas – uma similaridade que levou muitos (eu também, admito) a ficar convencido de que Lucas foi inspirado, educadamente dizendo, pelos quadrinhos dos Novos Deuses e o Quarto Mundo de Kirby quando construiu seu próprio épico de ficção científica. Parecia que as ideias de Kirby instigavam a todos.

Avengers4E havia tantos deles! Não só ele criou ou co-criou basicamente a linha base de super-heróis da Marvel que todos aprenderam a amar desde então através dos filmes dos Vingadores e X-Men – ele também esteve na criação do Homem-Aranha, aparentemente, mas apenas tangencialmente – mas também foi um dos responsáveis por todo o gênero dos quadrinhos de romance, feitos rapidamente enquanto procurava por emprego nos anos 1950. Como se seu trabalho dos anos 1960 da Marvel não fosse importante o bastante, ele basicamente reescreveu o livro de regras para o gênero de super-heróis, tanto em termos de gramática narrativa e linguagem visual no Quarteto Fantástico, e criou uma estrutura para combinar o místico e o mundano no Thor que permanece até hoje, e vem sendo cooptado por outras mídias tanto consciente quanto inconscientemente.

Conforme envelhecia, comecei a apreciar a estética de Kirby cada vez mais, ao ponto de ele ser hoje um dos meus artistas favoritos do século 20 – não só em termos de quadrinhos, mas da arte visual em geral; coisas como os Pontos de Kirby (Kirby Kracle ou Dots) ou sua estilização gráfica tão específica da tecnologia tem uma beleza e apelo particularmente individuais que eu comecei a apreciar, além de seus cortes narrativos sem igual (a forma em que cada quadro individual leva o olho ao próximo é algo que poucos tentaram fazer de forma consistente, imagina conseguir) e uma criatividade incontrolável.

No seu ápice, Kirby criou a cultura popular como a conhecemos hoje. Muito das ideias e personagens que circulam hoje foram moldados de alguma forma importante e básica pelo trabalho de Kirby. Não importava que seu trabalho não fosse aceitável o bastante para garotos como eu nos anos 1980; Kirby transcendeu esse tipo de coisa. Não é que a qualidade irá se sobrepor, porque ele transcendeu isso, também. Décadas antes de acontecer, Jack Kriby desenhou o século 21.

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